No aniversário de 20 anos do bicampeonato da Copa do Brasil, Ney Franco relembra as decisões táticas que surpreenderam o Vasco e garantiram a taça ao Flamengo em 2006, segundo o Ge Flamengo. O técnico revela que aceitou o convite rubro-negro sem sequer perguntar o salário — e que as escolhas ousadas na final, incluindo o esquema 3-6-1 e a escalação do garoto Renato Augusto, mudaram o patamar da sua carreira.
Atualmente sem clube, Ney Franco prioriza um retorno ao futebol brasileiro e afirma que aquele título “me abriu e me abre portas até hoje”.
Convite no vestiário do Maracanã — sem discutir salário
A história começou de forma inusitada. Após o Ipatinga ser eliminado pelo Flamengo na semifinal da Copa do Brasil, ainda no vestiário do Maracanã, o dirigente Kléber Leite procurou Ney Franco. O técnico esperava um cumprimento pela campanha — mas recebeu um convite para assumir o Rubro-Negro.
Quando ele falou que o Flamengo trocaria o treinador e que o nome seria o meu, pensei: “É pegadinha, né?” Primeiro, que eu não tinha proposta nenhuma. Mas fiz uma cara que tinha.
— disse Ney Franco ao GE
O treinador passou um fim de semana de ansiedade até a confirmação na segunda-feira. Quando o supervisor Isaías Tinoco ligou para formalizar a contratação, Ney Franco nem discutiu valores. “Para você ter ideia da minha vontade de acontecer”, explicou.
Um detalhe que o técnico lamenta: nunca conversou com Waldemar Lemos, seu antecessor no cargo. “Se um dia eu tiver essa oportunidade de sentar com o Waldemar, tomar um cafezinho, vai ser um prazer enorme”, afirmou.
O xeque-mate tático — 3-6-1 que desmoronou o favoritismo vascaíno
Ney Franco chegou ao Flamengo com apenas dois anos de experiência no profissional. Mas estudou o elenco a fundo — e identificou uma oportunidade: Léo Moura e Juan eram espetaculares no ataque, mas deixavam espaços defensivos.
A solução veio na forma do esquema 3-6-1, com três zagueiros (Renato Silva, Fernando e Angelim) dando cobertura para os laterais subirem simultaneamente. O técnico improvisou Toró como volante e lançou Renato Augusto, de 18 anos, como titular em uma final nacional.
Hoje, a gente vê no futebol mundial muita gente jogando assim. O que o Flamengo fez naquela final é o que a maioria dos clubes fazem hoje — uma saída de bola com três zagueiros.
— explicou Ney Franco
O sistema funcionou: o Flamengo não foi vazado nos dois jogos e marcou três gols. No primeiro jogo, após a lesão de Renato Silva, o técnico ajustou para dois atacantes com Obina — e o time manteve o controle. Conforme divulgado originalmente pelo Ge Flamengo, “Os atletas compraram a ideia”, destacou Ney Franco. “Expliquei direitinho qual era o objetivo, e os caras bateram no peito.”
Título que mudou de patamar — e ainda abre portas
Aquele bicampeonato marcou a primeira taça nacional de Ney Franco como técnico profissional. Depois vieram outros títulos importantes: Sul-Americana com o São Paulo, Série B com o Coritiba em 2010 e o Mundial sub-20 com a Seleção Brasileira da geração de Neymar, Casemiro, Danilo, Philippe Coutinho, Oscar e Lucas Moura.
Mas a Copa do Brasil de 2006 tem peso especial. “Logicamente que esse título da Copa do Brasil me abriu e me abre portas até hoje dentro do futebol”, afirmou o treinador.
Ney Franco ficou um ano e quatro meses no comando do Flamengo — marca que, na época, só havia sido alcançada por Zagallo. Recentemente, teve sua primeira experiência internacional no Al Hussein, da Jordânia, mas foi demitido por problemas internos antes de o time ser campeão.
Atualmente sem clube, o técnico busca um retorno ao futebol brasileiro, priorizando equipes da Série A ou da Série B com real potencial de acesso. E carrega consigo as lembranças daquele título que, há 20 anos, mudou sua trajetória.
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